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França. Batalha entre Hittler e Zielinski coloca Arcis-sur-Aube no mapa digital

França. Batalha entre Hittler e Zielinski coloca Arcis-sur-Aube no mapa digital

A história parece inventada mas não é. A mais recente sensação nas redes sociais é uma pequena cidade francesa, com menos de 3.000 habitantes, instantaneamente famosa mal os internautas se aperceberam que, no próximo domingo, as eleições municipais irão opor dois candidatos com os sonoros nomes Hittler e Zielinski.

Graça Andrade Ramos - RTP /
Recriação das batalhas napoleónicas nas ruas da moderna Arcis-sur-Aube, que de repente assumiu notariedade mundial DR

Nenhum dos dois acha o facto estranho. Em entrevista à estação televisiva francesa BFM, ambos os candidatos disseram que a questão dos nomes nunca lhes tinha passado pela cabeça.
  O autarca Hittler, que procura a reeleição, admitiu estar tão habituado ao seu próprio nome que nunca lhe ocorreu que o facto fosse esquisito.

Mas, mal se falou disso, de imediato surgiram dezenas de publicações humorísticas, a opor o falecido ditador alemão nazi, Adolf Hitler, ao presidente ucraniano contemporâneo, Volodymyr Zelensky.

A atiçar as piadas, o facto ainda mais curioso, de a Arcis-sur-Aube francesa, situada nas margens do rio Aube, ter dado o nome a uma cidade perto de Odessa, na Ucrânia de Zelensky.

E as coincidências prosseguem.

Em 1814, Napoleão travou uma batalha em Arcis-sur-Aube contra os exércitos invasores austríaco, prussiano e russo – e dois anos depois, imigrantes alemães convidados pelo governo russo batizaram a sua povoação de Artsyz, em homenagem à batalha.
Fenómeno descontrolado
O francês Hittler, de nome próprio Charles, lamenta a súbita notoriedade. "Está completamente descontrolada", referiu à BBC. Hittler lidera uma lista de centro-direita em Arcis-sur-Aube, e o seu adversário Antoine Renault-Zielinski, pertence ao movimento de extrema-direita Patriota.

Renault-Zielinski é um ex-agente alfandegário e empreendedor local dinâmico, recém-chegado a Arcis, ao contrário de Hittler, um filho da terra. A segunda parte do seu nome vem da sua mãe polaca.

"As pessoas perguntam-me frequentemente se sou parente de Zelensky – ao que tenho de responder que não, salientando que o nome polaco termina em 'i' e o ucraniano em 'y'", disse à BFMTV.

"No domingo, comecei a ver mensagens sobre os nossos nomes a circular no X e pensei que fosse apenas uma brincadeira tola. Mas aos poucos percebi que todos falavam de nós!", prosseguiu.

"Percebo porque é que as pessoas acham piada. Pessoalmente, não me faz rir, mas também não me incomoda", garantiu. "Seria melhor se as pessoas falassem de Arcis por outros motivos, mas pelo menos estamos no mapa", acrescentou.

Charles Hitler tem-se mostrado mais incomodado. "Se as pessoas estivessem a falar sobre a cidade e as nossas políticas, seria uma coisa. Mas tudo o que lhes interessa são os nossos nomes", indignou-se.

A atenção está a ser excessiva, acrescentou. "Está fora de controlo. Vi artigos online a dizer '37% dos habitantes de Arcis são hitleristas!'. A minha esposa está em lágrimas".

"Toda a vida já fui alvo de piadas ocasionais sobre o meu nome", referiu. "Por vezes, as pessoas desenhavam bigodes nos meus cartazes de campanha. Nunca foi um grande problema".

Até agora.
Um apelido em declínio
Filho de um pastor do norte da Alsácia, 'Monsieur Charles', como é mais conhecido, sempre desvalorizou o apelido.

O pai esteve na Alemanha durante a guerra, levado para trabalhos forçados. No regresso, conheceu a mãe de Charles, em 1949. Aconselharam-no naturalmente a mudar de nome.

"Mas seria uma enorme dor de cabeça administrativa e custaria muito dinheiro, por isso não o mudaram", explicou o candidato.

Até porque, "uma vez que se torna conhecido, o nome deixa de ter importância. As pessoas olham para a pessoa por detrás do nome. Para os meus conhecidos, eu era apenas 'Monsieur Charles'. Por isso, decidi mantê-lo", explicou em entrevistas. Uma filha e uma nora de Charles, igualmente Hittler, são candidatas a vereadoras nas eleições municipais noutras cidades de França.

O apelido está contudo em declínio em França. Os primos Hittler na Alsácia tiveram todos filhas, pelo que o nome está a desaparecer por lá. Um dos seus filhos pronuncia o nome "Hit-lay" para evitar constrangimentos, e os seus netos adotaram o apelido da mãe, contou Charles aos jornalistas.

Também na Alemanha e na Áustria, o apelido Hitler popularizado por Adolf em meados do século XX, era relativamente raro e, depois da Segunda Grande Guerra praticamente desapareceu.

Já a notoriedade de Arcis-sur-Aube, 160 quilómetros a sudeste de Paris, poderá manter-se mais uns dias.
Segunda volta renhida
A segunda volta das eleições municipais, no próximo domingo, coloca Hittler contra Renault-Zielinski e uma terceira candidata, Annie Soucat.

Na primeira volta, Charles Hittler, sob o slogan "Vamos agir juntos por Arcis", venceu com 37,81 por cento dos votos, longe do limite dos 50 por cento necessários para garantir a reeleição.

Logo atrás, ficou Antoine Renault-Zielinski, a concorrer com o lema "Arcis-sur-Aube em chamas", que obteve 29,99 por cento. Hittler e Renault-Zielinski vão disputar a segunda volta, juntamente com Annie Souca, que ficou em segundo lugar com 32,20 por cento.

Os internautas irão agora estar atentos para saber se Hittler irá ascender de novo ao poder local ou se Zielinski o irá vencer.
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